Objetivo 13: Ação Climática

Direitos à Terra na Amazônia Brasileira: promessas, ameaças e resistência

Para os povos indígenas, a floresta é mais do que um símbolo global: ela é casa, história, mãe, alimento e espiritualidade.
POR Kelly Bone Guajajara
28 September 2025

Falar sobre a Amazônia é falar de um território que não pertence apenas ao Brasil, mas ao mundo inteiro. No entanto, para os povos indígenas, a

floresta é mais do que um símbolo global: ela é casa, história, mãe, alimento e espiritualidade. É nessa terra que se concentra uma das maiores disputas políticas e sociais do nosso tempo: o direito à terra na Amazônia brasileira.


Nos últimos anos, especialmente durante o governo Lula, essa questão voltou ao centro das atenções. Promessas foram feitas, decretos assinados,

leis discutidas e vetos aplicados. Mas a realidade da floresta, e principalmente da vida indígena, ainda está longe de refletir o que está escrito no papel.



A Constituição de 1988 e a dívida histórica


O ponto de partida dessa discussão é a Constituição Federal de 1988, que reconheceu aos povos indígenas o direito originário às suas terras. Isso significa que essas terras não foram “concedidas” pelo Estado, mas já pertenciam a eles muito antes da formação do Brasil. A Carta Magna

determinou que todas as terras indígenas deveriam ser demarcadas até 1993.


Mais de 30 anos depois, essa promessa segue incompleta. Existem hoje no Brasil cerca de 764 territórios indígenas identificados, mas pouco mais

de 500 foram homologados oficialmente. O atraso não é burocrático apenas: ele representa conflitos, violência, expulsões, queimadas e invasões ilegais.


O Marco Temporal e a luta no Congresso


Um dos maiores pontos de conflito recente é o chamado Marco Temporal. A tese, defendida por ruralistas e por parte do Congresso, determina que só teriam direito à terra os povos indígenas que estivessem ocupando seus territórios na data da promulgação da Constituição, em 5 de outubro de 1988.


Essa visão é criticada por juristas, ambientalistas e, principalmente, pelo

movimento indígena. Afinal, muitos povos foram expulsos de suas terras antes

de 1988, em períodos de forte repressão militar e exploração econômica. Aplicar esse corte seria, na prática, apagar séculos de violência e negar direitos

constitucionais.


Em 2023, o Supremo Tribunal Federal (STF) rejeitou a tese do Marco Temporal, confirmando a inconstitucionalidade da proposta. No entanto, em

resposta, o Congresso aprovou a Lei 14.701/2023, que tenta recriar, por via legislativa, a mesma lógica do marco temporal. O presidente Lula vetou partes

importantes da lei, mas o Congresso derrubou alguns desses vetos. O resultado é um cenário de instabilidade jurídica: a decisão do STF de um lado,

e uma lei aprovada de outro.


Promessas de Lula e a prática


Durante sua campanha, Lula prometeu que a pauta indígena seria prioridade. E, de fato, alguns avanços ocorreram:


 Em 2023, foram homologadas oito novas terras indígenas, algo que não acontecia desde 2018.


 Foi recriado o Ministério dos Povos Indígenas, comandado por Sonia Guajajara, dando maior visibilidade política ao movimento.


 O governo lançou planos de combate ao garimpo ilegal em áreas como a Terra Yanomami, que viveu uma grave crise humanitária.


No entanto, a prática mostra limites. Enquanto homologações acontecem, projetos de infraestrutura, como estradas e hidrelétricas, continuam sendo defendidos por setores do próprio governo, colocando em risco territórios

indígenas. Além disso, a pressão política do agronegócio no Congresso tem freado avanços mais profundos.


Ou seja, Lula está num equilíbrio delicado: ao mesmo tempo em que acena para os povos indígenas e movimentos socioambientais, também precisa dialogar com a bancada ruralista, que tem força decisiva nas votações legislativas.


As ameaças constantes



Enquanto leis e decretos são discutidos em Brasília, a vida na floresta segue sob ataque. Três ameaças se destacam:


1. Garimpo ilegal – Avança em áreas como a Terra Yanomami e a Munduruku, deixando um rastro de destruição ambiental, doenças e violência. O mercúrio usado na mineração contamina rios, peixes e populações inteiras.


2. Grilagem de terras – A prática de invadir e falsificar documentos para se apropriar ilegalmente de terras públicas cresce em ritmo alarmante.

Ela é um dos motores do desmatamento.


3. Madeira e pecuária ilegais – A retirada ilegal de madeira e a abertura de áreas para pasto pressionam constantemente os territórios. Mesmo

em terras demarcadas, a fiscalização muitas vezes não consegue impedir a invasão.


Essas ameaças não são abstratas: elas resultam em mortes de lideranças indígenas, destruição de comunidades inteiras e um impacto climático que

repercute em todo o planeta.


O ativismo indígena como força política



Se o governo e o Congresso ainda vacilam, os povos indígenas têm mostrado cada vez mais protagonismo político. O movimento organizado,

liderado pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) e por lideranças como Sonia Guajajara, Célia Xakriabá e outros, se consolidou como uma das vozes mais ativas no debate nacional.


Marchas, ocupações de Brasília, presença em conferências climáticas e pressão sobre parlamentares têm garantido que a pauta indígena não seja esquecida. Mais do que resistência, esse ativismo mostra capacidade de formulação de políticas públicas, apresentando propostas concretas de manejo sustentável e proteção ambiental.



O futuro dos direitos à terra


O cenário é de disputa permanente. De um lado, o STF garante avanços jurídicos e reafirma a Constituição de 1988. Do outro, o Congresso tenta limitar os direitos com projetos como o Marco Temporal. O governo Lula, por sua vez, oscila entre atender às demandas indígenas e negociar com setores econômicos poderosos.


O que está em jogo não é apenas a posse da terra, mas o futuro da Amazônia e do clima global. Os povos indígenas protegem a floresta como ninguém: estudos mostram que áreas indígenas preservadas têm índices de

desmatamento muito menores do que áreas públicas sem proteção. Garantir seus direitos à terra é, ao mesmo tempo, garantir a sobrevivência do planeta.



Conclusão


A luta pelos direitos à terra na Amazônia brasileira é, antes de tudo, uma luta pela vida. É a história de um povo que resiste há mais de 500 anos às

tentativas de apagamento e exploração. É também um teste para a democracia brasileira: cumprir ou não cumprir aquilo que a Constituição determina.


O governo Lula trouxe avanços simbólicos e concretos, mas enfrenta pressões políticas que travam mudanças mais profundas. Enquanto isso, o

ativismo indígena cresce, mostrando que o futuro da Amazônia será decidido não apenas em gabinetes, mas também nas ruas, nas aldeias e nas vozes que ecoam em defesa da floresta.


Garantir os direitos à terra é reconhecer que a Amazônia não é apenas um recurso, mas um lar sagrado, guardado por aqueles que sempre souberam viver em harmonia com ela.

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